ENTREVISTA COM REYNALDO ROELS PUBLICADA NO PAPEL 3,
EM OUTUBRO DE 2007
Cleusa Maria
PERGUNTADO SOBRE OS PROBLEMAS de restauro que enfrentará como novo curador do Museu de Arte Moderna do Rio de janeiro, o crítico e professor Reynaldo Roels diz que o Brasil inteiro precisa de restauração. Brincadeira, ele corrige a seguir.Mas tão séria quanto as comemorações que ele planeja para marcar a entrada do MAM na terceira idade. O museu, que foi meca da vangauarda nos anos 60/70, se torna sessentão no ano que vem.
Esta é sua segunda passagem pelo MAM, isso significa que vai retomar projetos
anteriores? Ou o período fora do museu mudou sua perspectiva em relação a
ele?
Na verdade, esta é a minha terceira passagem pelo museu. Antes de ser curador
da Coleção Gilberto Chateaubriand-MAM, entre 1997 e 2000, fui coordenador
do Centro de Pesquisa e Documentação, de 1990 a 1993 (creio que o período
é esse mesmo). A casa não me é nem um pouco estranha, portanto. Quando
a retomar projetos ou a minha perspectiva haver mudado nesses sete anos,
acho que tanto eu mudei quanto o museu mudou. As condições de trabalho são
outras, o cenário artístico é outro e o próprio país é outro. Portanto, eu não
poderia retornar como se nada houvesse mudado nesse tempo. Além disso, não
tenho qualquer simpatia pelo hábito medíocre, mas muito arraigado entre nós,
de se fazer tabula rasa a cada mudança de administração.
Quais suas principais diretrizes à frente da curadoria e diante do problema
crônico de falta de recursos da instituição?
Em continuação ao que eu já disse anteriormente, a linha curatorial adotada
por meu antecessor, Fernando Cocchiarale, é fundamentalmente saudável,
do ponto de vista museológico. É questão agora de analisar o que funcionou
– e manter – e o que não funcionou – por que e como solucionar. Algumas
idéias, inclusive, eram comuns antes mesmo de eu receber o convite – como,
por exemplo, manter uma exposição permanente dos acervos. É essencial
que os nossos estudantes de arte, tanto quanto os visitantes, tenham acesso
sistemático às obras mestras de nossa arte. Com relação à falta de recursos, que
vem aos poucos sendo solucionada, isso não é novidade nenhuma neste País,
em especial no que diz respeito às instituições culturais, públicas e privadas.
Eu mesmo dirigi, igualmente com recursos escassíssimos, e durante quatro
anos e quatro meses, a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Isso nunca me
impediu de trabalhar, apenas me obrigou a ser realista. Há maneiras de pôr
uma instituição como o MAM em funcionamento com recursos limitados, e ao
mesmo tempo manter seu nível de excelência. Este, aliás, é o que irá pautar
minha atuação no museu.
Recentemente a imprensa noticiou a existência de cupins nos pilotis. Na
panorâmica de gravuras do CCBB, com obras cedidas por diferentes acervos,
visitantes notaram que alguns dos trabalhos cedidos pelo MAM careciam de
restauração. Da mesma forma, há cinco anos, o Jornal do Brasil noticiou a
preocupação do museu com a necessidade de restaurar o painel de Georges Mathieu
doado à instituição. Como administrar a guarda de tantas obras importantes [do
acervo e da Coleção Chateaubriand] com recursos tão escassos?
Talvez mais do que o acervo do museu, seja o Brasil que precise de restauração.
Mas isso é só uma brincadeira. O MAM tem uma política de preservação para a
qual não há recursos elásticos, é claro, o que nos obriga a estabelecer prioridades.
Essas prioridades dizem respeito ao verdadeiro estado de conservação da obra,
não à sua aparência – que, todos sabemos, não necessariamente é um indicador
do seu estado de conservação: obras à primeira vista perfeitas podem estar
correndo riscos muito mais sérios do que outras aparentemente deterioradas.
Trata-se de uma questão de conhecimento técnico, não cosmético. De todo
modo, só emprestamos obra quando ela está em condições reais de exibição.
E todas as vezes que o setor de museologia localiza risco real em qualquer das
obras, são tomadas as providências cabíveis. A tela de Mathieu a que você se
refere é o único caso em que ainda não se procedeu a uma intervenção definitiva,
apenas estabilizou-se a deterioração. O título é Morte antropofágica do bispo
Sardinha, e tem 3m por 10m. Executada muito rapidamente em condições pouco
ortodoxas (ela foi pintada em 1959 no próprio museu, em uma performance
pública do artista acompanhada por passistas de uma escola de samba), é frágil
e esteve durante muitos anos exposta a condições desfavoráveis. Desde que Paulo Herkenhoff
esteve à frente do MAM e constatou os danos, tentou que empresas francesas com interesses
no Brasil patrocinassem a restauração: é cara, diante das dimensões descomunais da pintura
e da grande fragilidade do trabalho. Desde então, projetos de recuperação foram elaborados,
mas nenhum com resultados positivos. Pretendo retomar a idéia, é claro, e é possível que ela
esteja recuperada para seu aniversário de 50 anos, em 2009.
Nos anos 70, o MAM foi o mais atuante pólo das artes no país. Como você avalia essa presença hoje?
Há de reconhecer que hoje a situação não é a mesma e, por outro lado, o próprio cenário
cultural é outro. Não se pode esquecer que parte daquela atuação foi determinada por uma
militância cuja urgência atualmente desapareceu. O sistema de arte brasileiro está muito
mais complexo e ao mesmo tempo muito mais esgarçado. Some-se a isto que a iniciativa
privada, no momento de decidir sobre patrocínios, preocupa-se muito mais com visibilidade
do que com excelência (há exceções, como em tudo na vida), e o público tende a se dirigir
preferencialmente para o grande espetáculo. As próprias diretrizes da política cultural
(federal, estadual e municipal) direcionam as práticas para uma espécie de panis et circensis
(sem o pão, naturalmente) que em tudo prejudica qualquer ação artística positiva. Por fim,
acho que o pior de tudo foi o fim da prática da discussão: o MAM, nos anos 60 e 70, se
notabilizava não apenas pelo que mostrava, mas pelas discussões que aqui ocorriam. Em todo
o Brasil, isso está um tanto minguado.
Quem freqüenta o museu percebe uma retração do público carioca e de visitantes de fora. São poucas as ocasiões – como recentemente nas mostras Tropicália e na homenagem aos 50 anos de Grande sertão: veredas – em que se vê tanta gente no museu. O que você planeja para revitalizar o espaço?
Em parte, reforçando a apresentação da produção contemporânea mais relevante no campo
das artes visuais brasileiras, e estimulando o debate em torno dela (veja resposta à pergunta
anterior). É a mais urgente das obrigações do MAM. Em parte, ainda, fazendo com que o
Museu apresente sistematicamente a história da arte brasileira moderna (que ainda está por
ser escrita: talvez falemos tanto em “memória” exatamente por não termos uma história). E
pretende-se que tudo isto seja acompanhado de publicações, que, ao fim e ao cabo, são o que fica para a posteridade e o que constrói a história de nossa arte.
Quais as principais exposições que pretende trazer ao museu?
No ano que vem (que é quando começo de fato a executar os projetos: encontrei uma
programação já pronta para os próximos meses, e de qualidade), temos os 60 anos do MAM e
40 anos de 1968 – ano decisivo para uma reorientação súbita na arte e na cultura brasileiras.
Pretendo que ambos sejam o ponto de partida para mostras que dêem conta da produção
deste mais de meio século de atividade artística no Museu e no País. Com os complementos
que mencionei acima. Há também o projeto também de exposição permanente do acervo,
entre outros.
Os salões de arte, como o panorama da produção contemporânea em 2001, que gerou grande polêmica e visibilidade na mídia não se repetiram mais. Por quê?
Os salões eram perfeitos para aquilo que foram criados: prestar contas anualmente do
desempenho dos alunos da Academia. Seu desenvolvimento ulterior, transformados que foram
em concursos nacionais entre artistas, enfraqueceu o formato. Os estímulos deles resultantes
(as premiações) foram igualmente encolhendo, com um resultado pouco feliz: quase nunca
vemos pertinência nos salões, mas muito ecletismo. Não acredito que isso dê certo, já que não reflete nada de sério. Nos anos 80, quando Iole de Freitas estava à frente do Inap/Funarte,
ela tentou uma reformulação do modelo, mas não pôde levá-la adiante. Eu mesmo coordenei
durante quatro anos (1993-1997) o Salão Carioca da defunta RioArte, e implementei mudanças
que, acredito, foram positivas (p. ex.: substitui a premiação por um pro-labore para todos os
participantes). Formatos recentemente adotados pela Funarte, como o Projéteis, acabam
sendo mais úteis. A única exceção que faço a isso é o Salão de Arte da Bahia, infelizmente
extinto, mas que funcionou. O motivo para tal deve ainda ser objeto de estudos.
Você acaba de chegar de visita a duas das mais importantes mostras da atualidade que atraem visitantes do mundo inteiro – a Bienal e Veneza e a Documenta de Kassel. Como crítico e professor, qual sua avaliação da arte que se produz no Rio?
Um milagre. Não há outra palavra para explicar a potência dos artistas cariocas (e não só
eles: em todo o País) em meio a tanta adversidade (afinal, praticamente só falei delas até
agora...). Não se pode esquecer, porém, que a cidade tem um de nossos principais centros de
formação em arte – o Parque Lage – e que a tradição de resistência do Rio de Janeiro, tanto
política quanto artística, vem de longa data. Em São Paulo, temos a bienal. No Rio, que ainda é a caixa de ressonância da cultura no país, não há nada parecido.
O que falta à cidade para a realização de eventos de arte de porte nacional. Interesse das autoridades; sensibilidade das empresas; ou vocação da cidade?
Sobre a falta de interesse das autoridades (exceto em períodos eleitorais, ou eleitoreiros...),
já falei antes. Mas acho que a pergunta não está adequadamente formulada. Temos eventos
de arte de porte nacional, e o Rio sempre demonstrou ter vocação para ser coração artístico
do Brasil. O que não temos é o grande espetáculo mediático. O nosso compromisso deve ser,
como afirmei antes, com a excelência, não com a visibilidade (no sentido pejorativo). Cabe
aos meios de comunicação, que acho meio desorientados há décadas, saber a que público se
dirige. Eles só reconhecem o assim chamado “grande público”, que acredito ser uma ficção
exceto para efeitos mais imediatos de marketing. E nem a arte e nem a cultura podem se
pautar pelo marketing.