Bienal do Mercosul
A reinvenção das bienais e o debate crítico
Experiente em bienais internacionais, com passagem pela documenta 12 de Kassel, Ricardo Basbaum aproveitou um dos intervalos das oficinas que realizou em agosto em Pelotas (RS) para conceder esta entrevista ao Papel das Artes. Ele foi convidado pela artista argentina Marina de Caro para dar continuidade, na cidade gaúcha, a seu projeto Você gostaria de participar de uma experiência artística? - dentro do módulo de residências Artistas em Disponibilidade da Bienal do Mercosul. Exercitando sua veia crítica, Basbaum avalia abaixo o momento das bienais mundiais e alerta para uma deficiência do debate artístico no Brasil, instável e “aquém de uma condição pública”.
Aracy Amaral, no artigo "Cinquenta anos de bienais ou da impossibilidade de reter o tempo" (Revista USP n. 52 – 2002), afirma que as bienais e documentas se tornaram salões ou exposições coletivas internacionais, sem o brilho e a contundência daquelas dos anos 1950 e 1960. O que pensa sobre esta visão do assunto?
Não cabe saudosismo – é preciso olhar para frente. Nesse sentido, também a crítica precisa se reinventar – buscar demarcar e construir suas possibilidades e espaços (que devem ser continuamente requisitados, conquistados). A Documenta 12, por exemplo, foi intensamente discutida no exterior, mas pouquíssimo no Brasil. Logo, o problema não estaria na megaexposição, mas na falta de capacidade do meio de arte brasileiro sustentar um debate consistente e permanente, de modo público. No Brasil, o debate crítico está aquém de uma condição pública, em defasagem com a produção existente. Alguém acha que as últimas bienais de São Paulo ou do Mercosul não trouxeram questões importantes? O debate não deve estar atrelado a exposições, mas existir permanentemente no circuito, a partir da prática artística em suas relações com a sociedade.
O modelo de bienais está esgotado?
Não existe um modelo a priori de Bienal – a única exigência é que o evento seja repetido a cada dois anos. Todo o resto (modelo expositivo, modelo de gestão, projeto curatorial, relação com os artistas etc.) pode ser reinventado. É pena que, na maioria das vezes, falte ousadia aos gestores dos eventos – e seus patrocinadores – e eles adotem fórmulas repetidas e desatualizadas. Há um campo fértil para que este modelo seja revirado, modificado. A Bienal do Mercosul vem experimentando modificações, em dinâmica mais aberta que a de São Paulo, e isso a faz mais interessante. O curador é escolhido mediante envio de projeto e não por indicação política, o que evidencia um compromisso maior da instituição com o projeto curatorial e também uma maior autonomia política do curador e de sua equipe. Nesta 7ª edição, destaco o segmento Artistas em Disponibilidade, que tem permitido outros modos de compartilhamento e desenvolvimento dos projetos, com resultados importantes. Se este formato fosse estendido por toda a Bienal, sem dúvida teríamos um evento diferenciado.
A Bienal do Mercosul é vista pelo circuito de arte internacional como um evento regional, ou contribui para um debate global de arte?
Ela decididamente possui projeção internacional e é capaz de influenciar outros eventos e produzir discussão crítica em âmbito globalizado. Ao estabelecer essa conexão, ela passa a prescindir da mediação dos centros hegemônicos brasileiros – Rio de Janeiro e São Paulo – que têm de reconhecer o evento como interlocutor legítimo e avançado, fato que implica em mudanças na geografia política e econômica do circuito de arte brasileiro. São Paulo realiza a segunda mais antiga Bienal do planeta; mas, sob este parâmetro, poderíamos considerar o Rio de Janeiro como um pólo regional de arte contemporânea! Outro dado: entre os projetos curatoriais finalistas desta Bienal do Mercosul, havia pelo menos dois de importantes curadores europeus. Ou seja, ela é uma importante plataforma de interlocução internacional para a arte contemporânea brasileira. (B.T.)
sábado, 14 de novembro de 2009
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