terça-feira, 24 de novembro de 2009
sábado, 14 de novembro de 2009
BALANÇO DO ENCONTRO NO MAM
Políticas da Arte – Diálogos da Arte
Balanço do Encontro – 3 e 4 de novembro de 2009
MAM-RJ
Considerações gerais
[por Frederico Coelho]
Os dois dias de encontros realizados no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro surgiram sem objeto certo, a partir da comoção e reflexão coletiva em que o meio das artes visuais se viu envolvido após o incêndio do Projeto HO.
O incêndio, suas causas e suas consequências, desencadearam debates sobre diversos temas caros ao universo das artes visuais em particular e das artes em geral: conservação de acervos, reflexão crítica e ação prática sobre políticas públicas para constituição e manutenção de acervos públicos e privados, o papel do Estado no fomento dessas políticas públicas, o papel das famílias e da iniciativa privada em relação às ações do Estado, o papel dos museus públicos e privados na aquisição, conservação e exibição das obras de artistas mortos e vivos etc.
Nas três mesas do encontro, esses e outros temas foram abordados e debatidos entre público e palestrantes. A formação das mesas não obedeceu a uma ordem fixa, incorporando pessoas da platéia que quisessem fazer pronunciamentos – como Xico Chaves e Ricardo Resende (Funarte) na mesa da quarta-feira (dia 4). O evento foi todo gravado e filmado como forma de registro e será transcrito e editado para uma publicação a ser lançada pela Azougue Editorial ainda este ano.
No primeiro dia, terça-feira (dia 3), os trabalhos foram abertos na parte da manhã por Frederico Coelho e Sergio Cohn, com fala de Cesar Oiticica Filho. O tema de abertura foi a retomada do MAM como espaço público da sociedade civil nos debates sobre arte e cultura na cidade e a primeira proposta da Rede Arte Brasil – espaço virtual de divulgação, pesquisa e produção crítica das artes visuais do país. Já Cesar Oiticica Filho comentou o apoio do Governo Federal através do Ministério da Cultura e do IBRAM, que se ofereceram prontamente para ajudar o Projeto HO na recuperação do acervo queimado. Apesar disso, Cesar Oiticica também pontuou o descompasso permanente das opiniões da burocracia estatal em relação aos interesses da classe dos artistas visuais e das suas demandas políticas.
O debate proposto teve como eixo a demanda por um espaço autônomo de decisões e proposições de políticas culturais por parte da sociedade civil em geral e dos artistas visuais em particular. Clarisse Tarran, Raul Mourão, Bob N e Xico Chaves fizeram colocações abordando as várias formas de ação política atualmente – desde petições eletrônicas por email, passando por debates no facebook e em blogs até a ação direta no âmbito da proposição de diálogos estratégicos com o poder público, a iniciativa privada, as universidades e as instituições da arte.
Todos detectaram que os próximos anos de afluência financeira carioca é o momento das artes visuais ocuparem a cidade de forma propositiva. Outro ponto debatido foi o desgaste causado pela permanente mudança e recomeço de políticas públicas para o setor da arte – isto é, a cada governo, um novo gestor, um novo plano, uma nova convocação para diálogo a despeito de ações bem sucedidas no passado.
Durante a tarde do dia 3, Daniela Name, João Vergara e Xico Chaves aprofundaram a discussão sobre acervos, conservação e divulgação de obras. Com base no estudo de João sobre acervos de artistas brasileiros e de sua experiência a frente do acervo de Carlos Vergara, surgiram questões ligadas à museologia e à necessidade de uma relação mais estreita entre museólogos, artistas, famílias donas de acervo e instituições de financiamento. Noni Ostrower e Paola Terranova expuseram os seus problemas na manutenção dos acervos de Fayga Ostrower e de Franco Terranova, dono da histórica Petit Galerie. Xico Chaves afirmou que o maior acervo ameaçado do país é o acervo da arte contemporânea, isto é, o acervo dos artistas vivos, que produzem até hoje sem garantia de preservação, de espaços estruturados para guardá-los e, principalmente, para exibi-los. Guilherme Vergara também contribuiu com uma leitura de algumas reflexões sobre a atual política de museus no Brasil e insistiu no aprofundamento da interface entre arte e educação a partir do diálogo entre as artes visuais e as Universidades.
Na quarta-feira (dia 4) o evento foi marcado pelo debate aberto entre a mesa e a platéia. Com formação móvel, a mesa teve a presença de Marcio Botner, Xico Chaves, Felipe Scovino, Sergio Cohn, Ernesto Neto, Ricardo Resende (representante da Funarte para as Artes Visuais), Cesar Oiticica Filho e Luiz Camillo Osório. Ao contrário do dia anterior, o debate derivou para uma série de temas focalizados nas falas, além de dois temas localizados: as perguntas direcionadas ao representante da Funarte sobre a participação dos artistas nas câmeras setoriais e sobre a falta cada vez maior de diálogo entre as artes visuais e a instituição; a apresentação das intenções de trabalho e as respostas às perguntas do público por parte do novo curador do MAM, Luiz Camillo Osório.
Foram importantes também as participações de artistas com depoimentos sobre os problemas – e as soluções – que vivem em seu cotidiano. Desde a crítica sobre o papel de instituições sem diálogo com o meio da arte contemporânea – Como o Museu Nacional de Belas Artes – até a busca de novas formas de diálogo entre classes sociais a partir dos espaços proporcionados pela arte. Também foram postas em debate temas chaves para o trabalho do artistas visual como a questão do pro-labore e do pagamento pelo seu trabalho, a questão da profissionalização do artista visual e a questão intrincada dos direitos autorais sobre a divulgação e circulação de obras.
Ao longo de quatro horas de debates, tivemos algumas propostas vindas dos integrantes da mesa e outras que contaram com o apoio do público. Abaixo, o resumo de cinco propostas e questões que surgiram no encontro:
1) A formação de um espaço consensual e coletivo de ações e proposições de políticas sobre as artes visuais da cidade. Um espaço que tenha origem em movimentações da sociedade civil e seja autônomo frente à sazonalidade do poder público e à mudança de diretrizes políticas em cada eleição. Não esperar mais a lógica das ações do Estado, mas investir em ações com o Estado
2) A criação de uma rede virtual de divulgação, pesquisa e documentação das artes visuais brasileiras – A Rede Arte Brasil
3) A criação de um Centro de Referência das Artes Visuais a partir da cessão de um terreno federal no centro do Rio de Janeiro – em negociação entre o Projeto HO e o Ministério da Cultura
4) A formação de uma comissão para debater mudanças significativas na legislação brasileira relativa a impostos sobre as artes visuais: heranças, desoneração de carga tributária sobre transporte de obras etc.
5) A fundação de uma espécie de pacto educacional ao redor das artes visuais, estreitando o relacionamento entre artistas, acervos, universidades, museólogos, especialistas em conservação, produtores culturais, curadores e representantes do poder público. Uma política em que arte e educação façam parte efetivamente de um mesmo espaço de produção e reflexão.
Balanço do Encontro – 3 e 4 de novembro de 2009
MAM-RJ
Considerações gerais
[por Frederico Coelho]
Os dois dias de encontros realizados no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro surgiram sem objeto certo, a partir da comoção e reflexão coletiva em que o meio das artes visuais se viu envolvido após o incêndio do Projeto HO.
O incêndio, suas causas e suas consequências, desencadearam debates sobre diversos temas caros ao universo das artes visuais em particular e das artes em geral: conservação de acervos, reflexão crítica e ação prática sobre políticas públicas para constituição e manutenção de acervos públicos e privados, o papel do Estado no fomento dessas políticas públicas, o papel das famílias e da iniciativa privada em relação às ações do Estado, o papel dos museus públicos e privados na aquisição, conservação e exibição das obras de artistas mortos e vivos etc.
Nas três mesas do encontro, esses e outros temas foram abordados e debatidos entre público e palestrantes. A formação das mesas não obedeceu a uma ordem fixa, incorporando pessoas da platéia que quisessem fazer pronunciamentos – como Xico Chaves e Ricardo Resende (Funarte) na mesa da quarta-feira (dia 4). O evento foi todo gravado e filmado como forma de registro e será transcrito e editado para uma publicação a ser lançada pela Azougue Editorial ainda este ano.
No primeiro dia, terça-feira (dia 3), os trabalhos foram abertos na parte da manhã por Frederico Coelho e Sergio Cohn, com fala de Cesar Oiticica Filho. O tema de abertura foi a retomada do MAM como espaço público da sociedade civil nos debates sobre arte e cultura na cidade e a primeira proposta da Rede Arte Brasil – espaço virtual de divulgação, pesquisa e produção crítica das artes visuais do país. Já Cesar Oiticica Filho comentou o apoio do Governo Federal através do Ministério da Cultura e do IBRAM, que se ofereceram prontamente para ajudar o Projeto HO na recuperação do acervo queimado. Apesar disso, Cesar Oiticica também pontuou o descompasso permanente das opiniões da burocracia estatal em relação aos interesses da classe dos artistas visuais e das suas demandas políticas.
O debate proposto teve como eixo a demanda por um espaço autônomo de decisões e proposições de políticas culturais por parte da sociedade civil em geral e dos artistas visuais em particular. Clarisse Tarran, Raul Mourão, Bob N e Xico Chaves fizeram colocações abordando as várias formas de ação política atualmente – desde petições eletrônicas por email, passando por debates no facebook e em blogs até a ação direta no âmbito da proposição de diálogos estratégicos com o poder público, a iniciativa privada, as universidades e as instituições da arte.
Todos detectaram que os próximos anos de afluência financeira carioca é o momento das artes visuais ocuparem a cidade de forma propositiva. Outro ponto debatido foi o desgaste causado pela permanente mudança e recomeço de políticas públicas para o setor da arte – isto é, a cada governo, um novo gestor, um novo plano, uma nova convocação para diálogo a despeito de ações bem sucedidas no passado.
Durante a tarde do dia 3, Daniela Name, João Vergara e Xico Chaves aprofundaram a discussão sobre acervos, conservação e divulgação de obras. Com base no estudo de João sobre acervos de artistas brasileiros e de sua experiência a frente do acervo de Carlos Vergara, surgiram questões ligadas à museologia e à necessidade de uma relação mais estreita entre museólogos, artistas, famílias donas de acervo e instituições de financiamento. Noni Ostrower e Paola Terranova expuseram os seus problemas na manutenção dos acervos de Fayga Ostrower e de Franco Terranova, dono da histórica Petit Galerie. Xico Chaves afirmou que o maior acervo ameaçado do país é o acervo da arte contemporânea, isto é, o acervo dos artistas vivos, que produzem até hoje sem garantia de preservação, de espaços estruturados para guardá-los e, principalmente, para exibi-los. Guilherme Vergara também contribuiu com uma leitura de algumas reflexões sobre a atual política de museus no Brasil e insistiu no aprofundamento da interface entre arte e educação a partir do diálogo entre as artes visuais e as Universidades.
Na quarta-feira (dia 4) o evento foi marcado pelo debate aberto entre a mesa e a platéia. Com formação móvel, a mesa teve a presença de Marcio Botner, Xico Chaves, Felipe Scovino, Sergio Cohn, Ernesto Neto, Ricardo Resende (representante da Funarte para as Artes Visuais), Cesar Oiticica Filho e Luiz Camillo Osório. Ao contrário do dia anterior, o debate derivou para uma série de temas focalizados nas falas, além de dois temas localizados: as perguntas direcionadas ao representante da Funarte sobre a participação dos artistas nas câmeras setoriais e sobre a falta cada vez maior de diálogo entre as artes visuais e a instituição; a apresentação das intenções de trabalho e as respostas às perguntas do público por parte do novo curador do MAM, Luiz Camillo Osório.
Foram importantes também as participações de artistas com depoimentos sobre os problemas – e as soluções – que vivem em seu cotidiano. Desde a crítica sobre o papel de instituições sem diálogo com o meio da arte contemporânea – Como o Museu Nacional de Belas Artes – até a busca de novas formas de diálogo entre classes sociais a partir dos espaços proporcionados pela arte. Também foram postas em debate temas chaves para o trabalho do artistas visual como a questão do pro-labore e do pagamento pelo seu trabalho, a questão da profissionalização do artista visual e a questão intrincada dos direitos autorais sobre a divulgação e circulação de obras.
Ao longo de quatro horas de debates, tivemos algumas propostas vindas dos integrantes da mesa e outras que contaram com o apoio do público. Abaixo, o resumo de cinco propostas e questões que surgiram no encontro:
1) A formação de um espaço consensual e coletivo de ações e proposições de políticas sobre as artes visuais da cidade. Um espaço que tenha origem em movimentações da sociedade civil e seja autônomo frente à sazonalidade do poder público e à mudança de diretrizes políticas em cada eleição. Não esperar mais a lógica das ações do Estado, mas investir em ações com o Estado
2) A criação de uma rede virtual de divulgação, pesquisa e documentação das artes visuais brasileiras – A Rede Arte Brasil
3) A criação de um Centro de Referência das Artes Visuais a partir da cessão de um terreno federal no centro do Rio de Janeiro – em negociação entre o Projeto HO e o Ministério da Cultura
4) A formação de uma comissão para debater mudanças significativas na legislação brasileira relativa a impostos sobre as artes visuais: heranças, desoneração de carga tributária sobre transporte de obras etc.
5) A fundação de uma espécie de pacto educacional ao redor das artes visuais, estreitando o relacionamento entre artistas, acervos, universidades, museólogos, especialistas em conservação, produtores culturais, curadores e representantes do poder público. Uma política em que arte e educação façam parte efetivamente de um mesmo espaço de produção e reflexão.
ENTREVISTA RICARDO BASBAUM
Bienal do Mercosul
A reinvenção das bienais e o debate crítico
Experiente em bienais internacionais, com passagem pela documenta 12 de Kassel, Ricardo Basbaum aproveitou um dos intervalos das oficinas que realizou em agosto em Pelotas (RS) para conceder esta entrevista ao Papel das Artes. Ele foi convidado pela artista argentina Marina de Caro para dar continuidade, na cidade gaúcha, a seu projeto Você gostaria de participar de uma experiência artística? - dentro do módulo de residências Artistas em Disponibilidade da Bienal do Mercosul. Exercitando sua veia crítica, Basbaum avalia abaixo o momento das bienais mundiais e alerta para uma deficiência do debate artístico no Brasil, instável e “aquém de uma condição pública”.
Aracy Amaral, no artigo "Cinquenta anos de bienais ou da impossibilidade de reter o tempo" (Revista USP n. 52 – 2002), afirma que as bienais e documentas se tornaram salões ou exposições coletivas internacionais, sem o brilho e a contundência daquelas dos anos 1950 e 1960. O que pensa sobre esta visão do assunto?
Não cabe saudosismo – é preciso olhar para frente. Nesse sentido, também a crítica precisa se reinventar – buscar demarcar e construir suas possibilidades e espaços (que devem ser continuamente requisitados, conquistados). A Documenta 12, por exemplo, foi intensamente discutida no exterior, mas pouquíssimo no Brasil. Logo, o problema não estaria na megaexposição, mas na falta de capacidade do meio de arte brasileiro sustentar um debate consistente e permanente, de modo público. No Brasil, o debate crítico está aquém de uma condição pública, em defasagem com a produção existente. Alguém acha que as últimas bienais de São Paulo ou do Mercosul não trouxeram questões importantes? O debate não deve estar atrelado a exposições, mas existir permanentemente no circuito, a partir da prática artística em suas relações com a sociedade.
O modelo de bienais está esgotado?
Não existe um modelo a priori de Bienal – a única exigência é que o evento seja repetido a cada dois anos. Todo o resto (modelo expositivo, modelo de gestão, projeto curatorial, relação com os artistas etc.) pode ser reinventado. É pena que, na maioria das vezes, falte ousadia aos gestores dos eventos – e seus patrocinadores – e eles adotem fórmulas repetidas e desatualizadas. Há um campo fértil para que este modelo seja revirado, modificado. A Bienal do Mercosul vem experimentando modificações, em dinâmica mais aberta que a de São Paulo, e isso a faz mais interessante. O curador é escolhido mediante envio de projeto e não por indicação política, o que evidencia um compromisso maior da instituição com o projeto curatorial e também uma maior autonomia política do curador e de sua equipe. Nesta 7ª edição, destaco o segmento Artistas em Disponibilidade, que tem permitido outros modos de compartilhamento e desenvolvimento dos projetos, com resultados importantes. Se este formato fosse estendido por toda a Bienal, sem dúvida teríamos um evento diferenciado.
A Bienal do Mercosul é vista pelo circuito de arte internacional como um evento regional, ou contribui para um debate global de arte?
Ela decididamente possui projeção internacional e é capaz de influenciar outros eventos e produzir discussão crítica em âmbito globalizado. Ao estabelecer essa conexão, ela passa a prescindir da mediação dos centros hegemônicos brasileiros – Rio de Janeiro e São Paulo – que têm de reconhecer o evento como interlocutor legítimo e avançado, fato que implica em mudanças na geografia política e econômica do circuito de arte brasileiro. São Paulo realiza a segunda mais antiga Bienal do planeta; mas, sob este parâmetro, poderíamos considerar o Rio de Janeiro como um pólo regional de arte contemporânea! Outro dado: entre os projetos curatoriais finalistas desta Bienal do Mercosul, havia pelo menos dois de importantes curadores europeus. Ou seja, ela é uma importante plataforma de interlocução internacional para a arte contemporânea brasileira. (B.T.)
A reinvenção das bienais e o debate crítico
Experiente em bienais internacionais, com passagem pela documenta 12 de Kassel, Ricardo Basbaum aproveitou um dos intervalos das oficinas que realizou em agosto em Pelotas (RS) para conceder esta entrevista ao Papel das Artes. Ele foi convidado pela artista argentina Marina de Caro para dar continuidade, na cidade gaúcha, a seu projeto Você gostaria de participar de uma experiência artística? - dentro do módulo de residências Artistas em Disponibilidade da Bienal do Mercosul. Exercitando sua veia crítica, Basbaum avalia abaixo o momento das bienais mundiais e alerta para uma deficiência do debate artístico no Brasil, instável e “aquém de uma condição pública”.
Aracy Amaral, no artigo "Cinquenta anos de bienais ou da impossibilidade de reter o tempo" (Revista USP n. 52 – 2002), afirma que as bienais e documentas se tornaram salões ou exposições coletivas internacionais, sem o brilho e a contundência daquelas dos anos 1950 e 1960. O que pensa sobre esta visão do assunto?
Não cabe saudosismo – é preciso olhar para frente. Nesse sentido, também a crítica precisa se reinventar – buscar demarcar e construir suas possibilidades e espaços (que devem ser continuamente requisitados, conquistados). A Documenta 12, por exemplo, foi intensamente discutida no exterior, mas pouquíssimo no Brasil. Logo, o problema não estaria na megaexposição, mas na falta de capacidade do meio de arte brasileiro sustentar um debate consistente e permanente, de modo público. No Brasil, o debate crítico está aquém de uma condição pública, em defasagem com a produção existente. Alguém acha que as últimas bienais de São Paulo ou do Mercosul não trouxeram questões importantes? O debate não deve estar atrelado a exposições, mas existir permanentemente no circuito, a partir da prática artística em suas relações com a sociedade.
O modelo de bienais está esgotado?
Não existe um modelo a priori de Bienal – a única exigência é que o evento seja repetido a cada dois anos. Todo o resto (modelo expositivo, modelo de gestão, projeto curatorial, relação com os artistas etc.) pode ser reinventado. É pena que, na maioria das vezes, falte ousadia aos gestores dos eventos – e seus patrocinadores – e eles adotem fórmulas repetidas e desatualizadas. Há um campo fértil para que este modelo seja revirado, modificado. A Bienal do Mercosul vem experimentando modificações, em dinâmica mais aberta que a de São Paulo, e isso a faz mais interessante. O curador é escolhido mediante envio de projeto e não por indicação política, o que evidencia um compromisso maior da instituição com o projeto curatorial e também uma maior autonomia política do curador e de sua equipe. Nesta 7ª edição, destaco o segmento Artistas em Disponibilidade, que tem permitido outros modos de compartilhamento e desenvolvimento dos projetos, com resultados importantes. Se este formato fosse estendido por toda a Bienal, sem dúvida teríamos um evento diferenciado.
A Bienal do Mercosul é vista pelo circuito de arte internacional como um evento regional, ou contribui para um debate global de arte?
Ela decididamente possui projeção internacional e é capaz de influenciar outros eventos e produzir discussão crítica em âmbito globalizado. Ao estabelecer essa conexão, ela passa a prescindir da mediação dos centros hegemônicos brasileiros – Rio de Janeiro e São Paulo – que têm de reconhecer o evento como interlocutor legítimo e avançado, fato que implica em mudanças na geografia política e econômica do circuito de arte brasileiro. São Paulo realiza a segunda mais antiga Bienal do planeta; mas, sob este parâmetro, poderíamos considerar o Rio de Janeiro como um pólo regional de arte contemporânea! Outro dado: entre os projetos curatoriais finalistas desta Bienal do Mercosul, havia pelo menos dois de importantes curadores europeus. Ou seja, ela é uma importante plataforma de interlocução internacional para a arte contemporânea brasileira. (B.T.)
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