terça-feira, 25 de agosto de 2009

PAPEL 12 EM BREVE NA PRAÇA


Quais as cinco obras de arte que todo mundo deveria ver antes de morrer? Como diria o sambista, responda quem souber. A ideia da enquete, que trazemos como destaque, era justamente esta: dificultar a vida dos participantes. Afinal, reduzir a cinco obras aquilo que seria essencial para a humanidade só pode ser brincadeira. Ou, melhor dizendo, um livre exercício de curiosidade. Bravamente, 26 convidados toparam o desafio de fazer suas escolhas de Sofia......
Isso e muito mais no Papel 12,que traz na capa o Candelabro Diógenes de Laura Lima. LANÇAMENTO: começo de setembro.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

RETRATO DO ARTISTA- fotografia Mario Cravo Neto

A ELÉIA DE MARIO


O filósofo pré-socrático Zenão de Eléia (495/430 a.C) ronda os pensamentos de Mario Cravo Neto desde a adolescência. Naquela época ao folhear pela primeira vez o livro Misticismo e lógica, de Bertrand Russel, o jovem surpreendeu-se com a descrição dos paradoxos do filósofo grego, discípulo direto de Parmênides e considerado um dos fundadores da dialética. Há três anos, fotógrafo baiano releu Russel e reencontrou o paradoxo da flecha, de Zenão – segundo o qual, se um objeto está em repouso quando ocupa um espaço igual às suas próprias dimensões, uma flecha em vôo está em repouso.
Depois de ter organizado a exposição composta por 31 obras e que ocupará o estande da Paulo Darzé Galeria de Arte, no Circuito de Fotografia, o artista batizou-a como A flecha em repouso, motivando a reflexão sobre o tempo e o movimento.


– Nós baianos temos certo tipo de conhecimento sobre uma natureza complexa e a fluidez do tempo, não havendo mais presente, passado e futuro. É aí que reside a questão de Zenão: a cada momento, estamos em outro tempo e lugar. Salvador é como Eléia, que o (poeta) Ildázio Tavares considera a sede dos ritos místicos mais elaborados da Grécia, altamente esotéricos e do alcance apenas dos iniciados – compara o fotógrafo.

A produção de Mario Cravo Neto é híbrida, plena de associações e referências que se justapõem. Nos 31 trabalhos a serem expostos, há 53 fotografias em cores, dos anos 70 até 2007, ora apresentadas individualmente, ora unidas em dípticos e trípticos. Em meio a jogos de luz e sombra, recortes de corpos se misturam a detalhes de azulejos, relevos sobre a Paixão de Cristo, objetos ritualísticos, vísceras de sacrifício. Na exposição, algumas ganham ainda citações de Ernest Becker, Bertrand Russel e Carl Jung.

– Penso que talvez uma determinada foto sozinha não seja forte o bastante, ou talvez eu queira uma outra idéia de tempo e espaço quando faço os dípticos e trípticos. Quanto às epígrafes, a maior parte dos escritos e análises sobre arte é uma balela, nada foi dito de substancial quanto à fotografia. Assim, pequenos trechos de poemas, escritos ou formulações, quando descontextualizados, adquirem nova vida ao lado de uma imagem. Mas fazer isso é bem difícil, existe uma dosagem para que o doce não fique amargo.

O caráter místico primitivo da Bahia é um dos elementos que mais atrai o fotógrafo. Há anos ele dedica-se a captar, em imagens profundamente subjetivas, o aroma espiritualizado que se desprende dos habitantes, das paisagens, dos movimentos direta ou indiretamente ligados aos cultos afro-brasileiros. Habituado a freqüentar terreiros e a presenciar despachos, procura transparecer a riqueza ritualística do sincretismo religioso. Mas admite que, mesmo em solo baiano, os preconceitos resistem de parte a parte.

– Vejo que estão aumentando, pois há grupos de patrulhamento ideológico, é uma forma de ascensão ao poder. Não se pode mais separar Omolu de São Lázaro ou Santa Bárbara de Iansã, os que tentam querem um apartheid social e religioso. Todos sabemos que eram entidades distintas, mas deixaram de ser há trezentos anos no imaginário e no inconsciente baiano. O sincretismo e a mistura das raças salvaram os negros provenientes da África, aqui eles encontraram um mecanismo bastante hábil para sobreviver. Aqui floresceu, na fantástica natureza tropical, o cenário do futuro de nosso povo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009